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Colunistas
Leituras de final de ano
por Francisco Dandão



De uns tempos para cá, eu tenho sido melhor cinéfilo do que leitor. Anteriormente era o contrário: eu lia bem mais do que via filmes. A facilidade de ver filmes no computador, através dos mais diversos serviços virtuais, influiu muito nessa minha mudança de hábito. Sinal dos tempos!

O prazer da leitura, porém, continua presente na minha vida. E, por algum motivo que eu não saberia determinar, se intensifica em determinados períodos do ano. Dezembro é um desses períodos. Acho que, embora esteja aposentado, eu ainda imagino que este seja o mês em que eu saio de férias.

Assim é que neste final de ano abandonei momentaneamente as séries da Netflix e trato de queimar as pestanas (expressão do já distante tempo de infância, quando eu lia à luz de velas na minha Brasiléia natal) em três leituras cruzadas: dois livros da Eliana Castela e um do cronista Xico Sá.

Da acreana Eliana Castela, leio Da escrita rupestre à era digital e Pelos rios ao sabor da fruta. O primeiro, uma coletânea de poemas escritos nas mais diversas situações. O segundo, uma espécie de diário de bordo das andanças dela pelo mundo. Do cearense Xico Sá, crônicas sobre futebol.

O livro de poemas da Eliana, pra falar a verdade, trata-se de uma releitura, uma vez que eu tive a honra de lê-lo ainda na forma original. É que a autora simplesmente me deu a honra de prefacia-lo. Um primor de poesias o dessa acreana de Rio Branco, criada entre os bairros da Base e do Caxias.

A poesia de Eliana Castela, digo eu lá pelas tantas do prefácio, “é semente que fincará raízes incandescentes na alma de quem lê-la. É sangue, seiva e fruto doce a um só tempo. (...) É ruído que pulveriza a ordem do discurso instituído. (...) Cisão num corpo recoberto com pele de lua nova...”.

Já o outro livro da Eliana, o que eu chamo de “diário de bordo”, dele emerge uma série de impressões dos lugares que a autora percorreu no Norte e no Nordeste do país. Não é um relato acadêmico, mas bem que podia ser chamado de antropologia, sociologia ou qualquer outras várias “logias”.

Enquanto que no livro do Xico Sá, com uma centena de crônicas sobre futebol, nesse eu misturo a fome com a vontade de comer. Texto mais do que brilhante, Xico Sá conduz o leitor por entre os meandros de uma alquimia que mistura num mesmo caldeirão a bola, o humor e a poesia. Pura magia!

Três livros, dois autores, três distintos destinos rolando das palmas das minhas mãos. Em cada linha, um encantamento segue o outro num eterno jogo de sedução. Esperança viajando no bico de ave de arribação. Revelação de efeito sem causa. Uma certeza: a palavra é matéria que foge da abstração!

 
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