Colunistas
A altura das uvas
por Francisco Dandão



A exemplo daquela raposa da fábula do escritor grego Esopo, que ao se ver sem condição de alcançar uvas suculentas na beira de uma estrada disse que elas estavam verdes, eu me vi tentado a dizer que futebol é apenas um jogo e que a derrota da seleção brasileira pouco ou nada me importou.

Igualmente eu poderia dizer que muitas outras seleções famosas e tradicionais dançaram na Copa bem antes do Brasil. Vide a Alemanha, campeã da Copa anterior e que não passou sequer da primeira fase. E vide a Argentina, que exibiu um time de peladeiros, incompatível com o seu nome.

Ou então eu poderia dizer que não tem nenhum problema o Brasil perder, uma vez que país algum poderá alcançá-lo nos próximos quatro anos em número de títulos. Só a seleção brasileira é pentacampeã mundial. Como se diz na musiquinha, “todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta”.

Entretanto, como eu não sou raposa e nem, muito menos, sei de algum Esopo que me queira tornar seu personagem, o que de fato devo dizer é que me bateu um desgosto profundo quando vi o árbitro determinar o final do jogo em que a Bélgica eliminou o Brasil nessa Copa do Mundo da Rússia.

A gente está cansado de saber que o futebol não é feito somente de glórias. A gente também está cansado de saber que nem sempre vence o melhor. E a gente, idem, está cansado de saber que inúmeras vezes a mão do destino interfere no campo de jogo para desviar a bola do fundo da rede.

Mas não foi a mão do destino que desviou as bolas chutadas pelos brasileiros nesse jogo contra a Bélgica. Se houve mãos que contribuíram para o resultado foram as do goleiro belga. O que esse sujeito pegou, não está no gibi. Alto, elástico, de reflexos apuradíssimos, ele parou o ataque do Brasil.

Fora isso, havemos de convir, alguns jogadores brasileiros estiveram numa jornada pra lá de irreconhecível. Erraram passes simples, desperdiçaram gols incríveis e mandaram pra longe das traves bolas que, em outras oportunidades, costumavam converter com até relativa facilidade.

Então, somados todos os catetos das mais exatas hipotenusas, e descontados os noves fora de sempre, o fato nu e cru é que a gente só pode alcançar o hexa quando chegar a vez de o Catar sediar a Copa. Ou seja: em 2022. O Brasil não conseguiu passar das quartas-de-final dessa vez.

Acabou pra nós por agora. Perder numa Copa é sempre um trauma para quem vive, dia após dia, em torno do futebol ou, pelo menos, de olhos voltados para o gracioso voo de uma bola. Escrevo enquanto misturo sentimentos: frustração e desgosto. Em outra encarnação quero ser raposa!

 
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