Colunistas
Como o futebol do Amazonas vai sair do buraco?
por Gabriel Seixas

Faltou pouco para o futebol amazonense conseguir o seu primeiro acesso em quase 20 anos. Jogando em casa, o Manaus perdeu nos pênaltis a oportunidade de recolocar uma equipe do estado nas três primeiras divisões do futebol brasileiro. Como um amazonense nato, sei que a sequência de frustrações, especialmente na última década, faz o torcedor se perguntar quando o futebol local vai superar a maior crise de sua história. Infelizmente, uma sina que parece longe de chegar ao fim.

É preciso dizer que o Manaus fez uma temporada admirável dentro de suas condições: chegou à semifinal da Copa Verde, conquistou novamente o Campeonato Amazonense e ainda bateu na trave pelo acesso na Série D. A receita foi simples, mas eficiente: um elenco apoiado em jogadores experientes, comprometidos e acostumados a competições nacionais, e sem demandar uma folha salarial exuberante.

Mas como bato na tecla há algum tempo, o acesso por si só não é um remédio para um problema tão complexo. O futebol amazonense é controlado pela mesma pessoa há quase três décadas. Por sinal, a chapa de Dissica Tomaz foi reeleita neste ano até 2022.

Usemos o Manaus, que está em evidência, como exemplo: é um clube novo, com apenas cinco anos de fundação e resultados significativos, que os distingue dos demais. Mas isso não significa necessariamente renovação. O clube é gerido por dirigentes que no passado controlaram outro clube local (Nacional), e os mesmos foram favoráveis à continuidade de Dissica na presidência da Federação Amazonense de Futebol. Um clube que, assim como os outros, teve a oportunidade de levantar a bandeira da renovação.

Para mudar este cenário, o futebol amazonense precisa ser um produto interessante à população – e a realidade é justamente inversa. É bem verdade que a atmosfera da Colina no jogo do último fim de semana foi muito bonita. E ela nos mostra que, além de um povo apaixonado por futebol, o amazonense também quer um cenário melhor e se apega na mudança mais palpável. Ali não haviam só torcedores do Manaus, mas do futebol local. Cientes do atraso, dos problemas, mas sedentos por um futuro melhor.

Ali ao lado, no Acre, um case que deveria servir de exemplo: o Atlético Acreano em 2017 conseguiu o acesso para a Série C. Neste ano, eles lideram seu grupo na terceira divisão e já sonham com a Série B em 2019. Um projeto simples, carente de uma estrutura robusta, mas firmado em jogadores de talento formados no próprio estado, que cresceram com o mesmo treinador e hoje colhem os frutos da semente plantada na base.

O crescimento precisa ser orgânico: ter uma ideia de gestão, aproveitar o mercado que o Amazonas oferece, criar aproximação com o público. Foi assim que o Iranduba, por exemplo, se tornou referência no futebol feminino brasileiro. Uma receita de longo prazo, mas infalível. É disso que o Amazonas precisa para sair do buraco e ocupar o protagonismo que merece. Dinheiro do poder público? Esqueça esse discurso. Futebol se faz com esforço próprio. E, quando bem feito, os resultados são sempre positivos.

 
© Copyright 2004 - 2018 / Todos os direitos reservados a Futebol do Norte