Colunistas
Armando, Luis e outros
por Francisco Dandão



Ando às voltas por esses dias com a tessitura de um artigo acadêmico sobre grandes escritores brasileiros que se dedicaram, entre outras variadas produções, a escrever crônicas sobre esportes. E então, por conta disso, tenho me deliciado com a releitura de verdadeiras pérolas do referido gênero.

São peças do mais refinado humor ou profundo lirismo de gente do porte do acreano Armando Nogueira (1927-2010), do gaúcho Luis Fernando Veríssimo (1936-), dos mineiros Paulo Mendes Campos (1922-1991) e Roberto Drummond (1933-2002) e do paulista José Roberto Torero (1963-).

Armando Nogueira, xapuriense e botafoguense desde que nasceu, foi um dos maiores poetas da crônica esportiva, como se pode ver neste fragmento: “O grito da multidão é e será, sempre, a moldura de uma obra imensa, forjada na pureza de uma bola, tocada e retocada por pés mágicos”.

Ou então, quando um dia escreveu uma crônica de exaltação aos futebolistas que jogavam de cabeça erguida e sem dar pontapés, ele disse que os caras formavam “(…) uma dinastia de craques soberbos a cuja estampa, a fluir pelo campo, só faltava uma echarpe de seda no pescoço principesco”.

Lirismo a perder de vista, assim como “cronicava” (não adianta procurar essa palavra nos dicionários, viu, leitor?) Paulo Mendes Campos, quando dizia coisas como: “Mineiro (…) espia, escuta, indaga, protela, se sopita, tolera (…). Parece até um estudo sobre o futebol de Tostão”.

No que toca a Roberto Drummond, que morreu no dia de um jogo do Brasil, na Copa do Mundo de 2002, veja-se o que ele disse sobre a paixão de torcer pelo Galo mineiro: “Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”.

Esses citados faziam poesia em prosa sobre o futebol. No caso de um dos sujeitos que traduzem a relação homem/bola com o humor, veja-se o que disse José Roberto Torero sobre a declaração de um cartola: “O importante no futebol é cada um achar a sua posição. A minha era de dirigente”.

Quanto ao Veríssimo, vejam só a sua percepção depois da derrota do Brasil na Copa de 1986: “Nova derrota, nova frustração e uma leve suspeita de que continuávamos sendo os melhores do mundo, mas que já era tempo de provarmos isso na prática, senão o pessoal ia começar a desconfiar”.

E para fechar, cito outra vez Luis Fernando Veríssimo, falando das suas apreensões num dado momento da vida da seleção brasileira de futebol:“Como se não bastassem o Brasil, a Humanidade e a próstata, comecei a me preocupar com o Vanderley Luxemburgo”. Rsrsrs. Fecha o pano devagar!

 


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