Colunistas
Bater e levar
por Francisco Dandão



A vida, todo mundo sabe, é feita de altos e baixos. Dependendo do caso, uns batem e outros apanham. E, às vezes, eventualmente, uns e outros trocam de lugar. Aí os que apanhavam antes passam a ser carrascos daqueles que batiam. Uma sociedade justa está longe do horizonte dos humanos.

O futebol, enquanto espelho da vida, segue o mesmo caminho. Uns batem e outros apanham. Normalmente aqueles que batem são os que não tem intimidade nenhuma com a bola, aqueles que tratam a deusa aos safanões. E os que apanham são os artistas, os caras da supremacia técnica.

Enquanto escrevo, lembro de pelo menos três cracaços do futebol brasileiro que apanharam pra valer dos zagueiros e volantes crueiras durante as suas respectivas carreiras: Pelé (Santos e seleção), o maior de todos; Arthur Zico (Flamengo e seleção); e Reinaldo (Atlético Mineiro e seleção).

Muito cedo os adversários descobriram que só poderiam “tentar” parar Pelé, deus negro de todos os estádios do mundo, se o abatessem na porrada. E foi assim que o rei cansou de ser caçado em campo. A ponto de ser quebrado na Copa de 1966 por um “açougueiro” português chamado Morais.

É bom que se diga, entretanto, que Pelé tinha malícia suficiente para, de vez em quando, mandar um dos seus algozes para o estaleiro. Foi assim, por exemplo, na Copa de 1970, quando o “negão” acertou uma cotovelada no zagueiro uruguaio Dagoberto Fontes. Pelé levava e batia quando podia.

Zico, o Galinho de Quintino, por sua vez, camisa dez da Gávea, ídolo maior de todos os flamenguistas, no auge da carreira sofreu uma entrada criminosa de um zagueiro do Bangu. O Galinho driblava meio mundo quando o “carniceiro” veio e acertou o craque com um pontapé no joelho.

Enquanto isso, no início dos anos 1970, um centroavante surgiu “comendo a bola” no Atlético Mineiro. A bola às vezes é fruto proibido. E, assim, comê-la pode ser considerado crime hediondo. Um dia Reinaldo torceu o joelho. Um outro dia foi quebrado num treino, por um colega.

Agorinha, deixando os exemplos do passado e trazendo os fatos para o tempo presente, outro virtuose da bola tupiniquim serve de alvo para os caçadores de pescoço. Falo de Neymar, que eu considero o maior talento futebolístico surgido no Brasil nos últimos 15 anos. Um craque fora de série!

O Neymar, aqui pra nós, tem levado às raias do absurdo essa coisa do craque que apanha. O cara quase não joga mais de tanto que lhe batem. Só nos últimos dois anos foram três contusões graves, seguidas das respectivas cirurgias. Neymar, pra falar a verdade, agora apanha até fora do campo. Aff!

 


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