Colunistas
No tempo da Gluco
por Francisco Dandão



Nossa campeoníssima olímpica de judô, Rafaela Silva, anda ocupando as páginas dos noticiários de uma forma, digamos, pouco edificante. É que a referida atleta foi flagrada com uma substância proibida no corpo, num exame antidoping nos Jogos Pan-Americanos, realizados no mês de agosto.

Não é o primeiro nem será o último caso de atletas de ponta cujos exames dão positivo para o uso de substâncias proibidas. Num passado recente, vários atletas se viram envolvidos nessa situação. Enquanto escrevo, lembro de dois: César Cielo (nadador) e Daiane dos Santos (ginasta).

E tem o caso, falando de futebol, do peruano Paolo Guerrero, hoje no Internacional, que acabou passando um tempo enorme sem poder entrar em campo por conta do resultado positivo de um exame dessa natureza. Guerrero viveu dias de angústia, mas conseguiu voltar marcando gols e em alto estilo.

Nenhum desses atletas citados admitiu ter, de fato, usado algum tipo de medicamento que pudesse ter aumentado a sua capacidade de desempenho. Eu, particularmente, acredito na inocência de todos. Mas, ainda que inadvertidamente, é certo que eles, de alguma forma, se contaminaram.

São outros tempos (os tempos sempre são outros). É preciso saber se os recordes obtidos pelos atletas são frutos mesmo do esforço dispendido pelos seus corpos e não inflados por algum tipo de artifício. Bem diferente de antigamente, quando muita gente se dopava para melhorar a performance.

No futebol, por exemplo, neguinho usava de tudo, principalmente anfetaminas (chamadas, no popular, de “bolinhas”). Com uma anfetamina na cabeça, o sujeito entrava em campo pilhado, com os olhos feito labaredas de fogo e fungando no cangote dos adversários. Era “doidão” pra todo lado.

E existia um medicamento injetável campeão de dopagem. Chamava-se Glucoenergan. Foi desenvolvido na década de 1960, como moderador de apetite e suplemento vitamínico. Quase todo mundo fazia uso da “Gluco”. Era mais fácil tomar uma “Gluco” do que se matar fazendo ginástica.

Eu já ouvi muitas histórias sobre a turma que usava esse medicamento antigamente. Desde histórias de um sujeito que desmaiou em seguida à injeção e, assim, não jogou naquele dia, até de outros que precisaram, anos depois, fazer transplante de fígado para poder seguir desfilando pela vida.

Há quem diga que o problema não era o medicamento, mas a forma como se ministrava. É que uma mesma seringa passava de braço em braço. Dessa forma, se alguém estava doente, contaminava os outros. Felizmente, esse tempo ficou para trás. Tomara que a Rafaela prove sua inocência!

 


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