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É dando que se recebe
por Francisco Dandão



Tá lá na Oração de São Francisco de Assis: “É dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”. O sentido da frase no contexto da oração é o da solidariedade mútua e do exercício do amor. Receber de volta o bem que se distribui e não devolver a ofensa. Muito bonito assim na forma de oração!

Me lembrei da frase ao mesmo tempo em que me veio à cabeça uma história do ex-ponteiro Roberto Ferraz, que distribuiu alegria no final da década de 1970 e toda a década de 1980 com as camisas do Rio Branco e do Juventus (este durante apenas uma temporada). O Roberto jogava muito.

Na verdade, me veio à cabeça de um jeito, digamos, subversivo. O sentido da história do Roberto Ferraz que eu lembrei é diametralmente oposto àquele da Oração de São Francisco de Assis. No futebol, não se perdoa ofensa nenhuma. O “dar” e o “receber” só aparece como “vingança”.

Essa história do Roberto que eu lembrei aconteceu em 1979. O dito cujo era um jovem promissor no time juvenil do Rio Branco. Ele e mais uma meia dúzia. Cite-se, para efeito de registro outros da mesma época: Eco (zagueiro), Paulo Roberto (lateral-direito), Carioca (meia armador) etc.

Todos esses foram convocados pelo técnico Antônio Leó para compor o elenco do Estrelão que iria disputar o Copão da Amazônia de 1979, em Porto Velho. Em princípio, a ideia era dar rodagem para os jovens atletas. Iriam para ficar na reserva. Só entrariam se surgisse alguma emergência.

O time principal do Rio Branco tinha muita gente boa (Illimani, Chicão, Vilson, Zezito, Mário Vieira, Mário Sales, Eli, Nino, Irineu, Bruno Couro Velho, Adalberto, Cleiber, Tião, Miltinho...). Para um jovem que procurava um lugar ao sol era difícil furar o bloqueio e ganhar uma vaguinha.

Eis que, entretanto, o destino sorriu para o Roberto, e o técnico Antônio Leó resolveu escalá-lo na ponta-esquerda contra o Ferroviário-RO. O sujeito que iria marca-lo seria um lateral tido como carniceiro, de nome Raul Gil. Não teria um marcador pior para a estreia de um jovem jogador.

No primeiro lance em que o Roberto partiu para cima do lateral, em vez de tentar o desarme na bola, este desferiu um murro no acreano que o levou a nocaute. Quando o Roberto acordou, depois de jogarem água na sua cabeça, o Raul Gil deu um jeito de sussurrar-lhe: “Levanta que vai ter mais”.

Foi aí que entrou na história o centroavante Irineu. Sem anuência do treinador, Irineu trocou de posição com o Roberto. Aí, na primeira oportunidade, adiantou a bola, simulando uma dividida, e foi direto na perna do lateral. Quebrou o cara e evocou a prece cristã: “É dando que se recebe”.

 


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