Colunistas
A escalação do Dunga
por Francisco Dandão



Não, caríssimo leitor, esse Dunga aí do título não é aquele volante carniceiro que foi campeão do mundo como titular da seleção brasileira na Copa de 1994. Esse Dunga ao qual me refiro é um treinador, oriundo não sei de onde, que trabalhou no Rio Branco, em meados da década de 1970.

Negro, alto e de pouco peso, o Dunga, embora soubesse muito de tática e técnica de futebol, se notabilizou mais pela falta de domínio do idioma pátrio e pelas atitudes, digamos, pouco ortodoxas que tomava de vez em quando, seja nas orientações, seja na escalação do glorioso Estrelão.

No que diz respeito às orientações, ele fazia questão de conversar com cada um dos jogadores para dizer o que queria que fosse executado nas respectivas partidas. Ele botava a mão no ombro do jogador, como quem ia dar um conselho de pai pra filho, e tome um bom lero-lero de pé de ouvido.

Para os zagueiros, no caso Chicão e Cleiber, o treinador Dunga costumava dizer que não poderia haver brincadeira no setor. E que defensor de verdade não podia sair de campo sem o calção sujo. E que não podia amaciar para atacante metido a besta. E que tinha que baixar o cacete mesmo.

Para os laterais, no caso Grassi (direito) e Tião (esquerdo), as orientações eram semelhantes. Com um adendo: se tivesse brecha, eles deveriam ir dar uma voltinha pelo ataque. Mas só muito eventualmente. Só depois de domados os ponteiros adversários. Bater primeiro e subir depois.

O pessoal que jogava no meio de campo, no caso Nostradamus, Tadeu e Mário Vieira, esses deveriam jogar como uma gangorra, subindo e descendo sempre. Nada de futebol enceradeira, do tipo que dá voltas em torno de si mesmo. E evitando dribles do tipo um pra frente e dois pra trás.

Para o centroavante Ronildo, a instrução principal era para chutar de qualquer maneira, assim que surgisse a oportunidade. Valia chutar de todo jeito, de bandinha, de chapa, de trivela, de bicudo... Não importava como saísse o chute. Era fechar os olhos e mandar o sapato para ver no que dava.

Aos ponteiros, Ely e Caíca, a ideia do Dunga era que eles alternassem idas ao fundo com entradas pelo meio. Para falar das entradas pelo meio, ele fazia um gesto com o braço apontando a direção. Quando perguntavam se era “em diagonal”, ele respondia: “Não, assim mesmo”. E repetia o gesto.

E quanto à escalação, um dia ele inovou, dizendo o seguinte. “O time vai sair jogando com: Illimani; Grassi, Chicão, Cleiber e Tião; Nostradamus, Tadeu e Mário Vieira; Ely, Ronildo e Caíca vai pro banco. No lugar do Caíca vai jogar o Laureano”. O vestiário não aguentou e explodiu na gargalhada.

 


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