Colunistas
Sobre caças e caçadores
por Francisco Dandão



Os desvios e as incertezas da vida não permitem que a gente permaneça exercendo um único papel no espaço que nos compete. Dependendo das mais variadas circunstâncias, num dia a gente pode ser caça e no outro caçador. Tudo pode mudar rapidamente, de uma hora para a outra.

Eu fiquei pensando nisso ao lembrar de um fato que aconteceu comigo, em julho de 2010, durante a disputa da Copa do Mundo da África do Sul, quando a seleção brasileira, comandada pelo Dunga, foi eliminada pela Holanda (também chamada de Países Baixos), nas quartas-de-final.

O Brasil (apesar do Dunga, nunca se pode esquecer esse detalhe), até que havia passado bem pela primeira fase daquela Copa, vencendo a Coréia do Norte, na estreia, por 2 a 1 (gols de Maicon e Elano), a Costa do Marfim, por 3 a 1 (gols de Luís Fabiano e Elano) e empatado com Portugal em 0 a 0.

Sim, eu sei, ganhar da Coréia do Norte e da Costa Marfim não significa muita coisa. Afinal de contas, aos coreanos, sob o regime da dinastia “ping pong”, só interessa mesmo o arsenal nuclear para jogar na cabeça dos inúmeros desafetos. E para os marfinenses, ir a uma Copa já é a sua glória.

E quanto a Portugal, que jamais jogou essa bola toda, a justificativa para o empate sem gols, de acordo com os entendidos da época, foi a de que o Brasil tirou o pé do acelerador, uma vez que o resultado bastava pra render o primeiro lugar do seu grupo. Teoria meio mequetrefe, mas vá lá que seja.

Nas oitavas-de-final, o Brasil passou bem pelo Chile: 3 a 0. Aí veio o naufrágio. Acostumado a jogar de salto alto, o Brasil nunca teve boa vida com a Holanda. Isso porque, de acordo com o meu amigo Joraí, para se dar bem com “países baixos”, a tática tem que ser mais, digamos, heterodoxa.

Mas, voltando ao início, já que eu falava de caças e caçadores, o que sucedeu comigo, que estava visitando a Cidade do Panamá, foi que ao descer do quarto do hotel para o restaurante, após a derrota do Brasil, uma argentina que eu jamais vira mais gorda se aproximou de mim e tirou o maior sarro.

Ante as gozações da mulher, que disse se chamar Carmem, eu fiquei completamente sem graça e maldizendo a hora em que a CBF chamou o Dunga para dirigir aquela seleção. Mas aguentei firme e desejei boa sorte para a Argentina, que no outro dia mediria forças com a perigosa Alemanha.

Como a justiça divina jamais falha, no dia seguinte os argentinos tomaram uma lapada de 4 a 0 dos alemães. Eu passei de caça a caçador. Infelizmente, não encontrei mais a tal Carmem para dar o troco. Na recepção do hotel me disseram que não existia ninguém registrado com aquele nome!

 


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