Colunistas
Chuva de granizo
por Francisco Dandão



Nos meus tempos de estudante de mestrado em Comunicação e Cultura, na imponente Universidade de Brasília (UnB), na segunda metade da década de 1990, eu costumava percorrer os três mil quilômetros entre a capital federal e Rio Branco a bordo do meu velho Monza de estimação.

Eu sempre gostei (e até hoje gosto) de dirigir por longas distâncias. Mas nunca fui o que se pode chamar um bom “estradeiro”, desses que sai de casa na madrugada para devorar mais quilômetros durante a jornada diária. Então, eu costumava levar uns quatro dias para percorrer a referida distância.

No meu “plano de voo”, eu estabelecia três paradas para dormir: Primavera do Leste (MT), Vilhena (RO) e Porto Velho (RO). No primeiro trecho, eu percorria 825 Km. Depois, o percurso era de 996 Km. Entre Vilhena e Porto Velho, outros 705 Km. Aí já estava quase chegando em casa.

Dessas três paradas, a que eu mais curtia era a de Vilhena. Primeiro por conta do clima diferente da cidade, que durante a noite, naquela época, costumava descer para menos de vinte graus. E segundo porque havia por lá um pequeno restaurante de comida oriental que eu simplesmente adorava.

Andei consultando a internet e vi que o clima de Vilhena, 20 anos depois, não é exatamente aquele. Agorinha mesmo, enquanto escrevo essas linhas sempre tortas, vejo que a temperatura, segundo o santo Google, está na casa dos trinta graus. Também não sei se o restaurante ainda existe.

Mas, apesar de todas as metamorfoses, o certo é que de vez em quando o tempo pela progressista e acolhedora (pelo menos era) cidade rondoniense, talvez fruto de uma enlouquecida dança de ventos ascendentes (ou descendentes, quem haverá de saber), pode mudar de alhos para bugalhos.

Tanto isso é verdade que choveu granizo neste domingo que recém passou, pouco antes do jogo entre o local Vilhenense e o Atlético Acreano, pela Série D do Campeonato Brasileiro deste nefasto ano de pandemia. Despencaram pedrinhas de gelo do céu de Vilhena sobre as cabeças incautas.

Confesso que quando eu soube dessa repentina chuva de granizo, pouco antes do jogo, cheguei a pensar que se tratava de alguma tática do Vilhenense para desestabilizar o Atlético, time que até aqui não perdeu de ninguém (também não conseguiu vencer, mas aí se trata de outro detalhe).

No final das contas, porém, constatei que o meu pensamento não tinha razão de ser (tampouco de estar, permanecer ou continuar). Não foi tática do Vilhenense não a tal chuva de granizo. Se fosse assim, o Atlético não teria empatado o jogo no final. E a saga continua. Daqui a pouco tem mais bola.

 


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