Colunistas
A essência do jogo
por Francisco Dandão



A essência do futebol é o gol. É pela glória de mandar a bola para as redes, o máximo que for possível, que 22 homens combatem, derramam o seu suor, dizem palavrões uns com os outros, dão pontapés, carrinhos, cabeçadas e até derramam o próprio sangue. É o gol que determina a luta!

Quando um jogo de futebol termina com o placar marcando zero a zero, o torcedor volta insatisfeito para casa e com a nítida impressão de que faltou alguma coisa para que fosse confirmada a, digamos, competência, tanto do seu time quanto do adversário. Zero a zero é um verdadeiro porre!

Ainda que bolas se choquem com as traves várias vezes, lance que sempre causa certo frisson, dado o perigo iminente do gol, ainda assim perpassa no meio da galera um sentimento de frustração. Bola na trave não é gol. Apesar da emoção, bola na trave é apenas quase gol, chute para fora.

Se o zero a zero for daquele tipo em que nem bola na trave aconteceu, então a coisa se configura pior ainda. É o caso de quando se enfrentam times covardes, cujos técnicos entendem que primeiro é preciso defender a rapadura e que imaginam ser o ataque uma ação sobrenatural.

Até o placar mínimo de um a zero pode ser frustrante, mesmo que o time vencedor seja aquele que faz tremer o coração da gente. Se esse um a zero, ainda que a favor das nossas cores, for daqueles em que o gol só saiu por um acidente de percurso, creiam, o desempenho é um sinal de alerta.

Falar nisso, me lembrei de um antigo treinador da seleção brasileira que costumava dizer nas suas entrevistas que até vitória de meio a zero valia. Pra mim, esse pensamento era uma espécie de pragmatismo elevado à decima potência, configurando-se na negação em estado puro do futebol.

Mas, toda essa argumentação que eu desenvolvi até aqui foi só pra dizer que nesses últimos dias, felizmente para todos os que amam o futebol pela sua essência (eu incluído), deve estar suspenso no ar um estado de euforia com goleadas que pintaram no planeta bola em momentos distintos.

Destaco duas dessas goleadas. Aquele três a três do Fla-Flu na decisão do primeiro turno do campeonato carioca e aquele seis a um que o Barcelona aplicou no Paris Saint Germain pelas oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa. Momentos divinos do futebol como obra de arte!

Pra mim, aliás, todo jogo deveria ter de seis gols pra cima: quatro a dois, cinco a um, seis a zero, três a três e por aí afora. Os velhinhos da FIFA bem que poderiam abolir os noventa minutos e estabelecer que o árbitro só apitasse o final depois de seis gols. Seria pedir demais? Ou não?

 
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