Entrevistas
De flanelinha e catador de lixo, Maurício Leal se torna o ‘xerife’ do Naça

O que parecia apenas mais uma contratação para a disputa do Campeonato Amazonense escondia a realização de um sonho para um dos jogadores do atual elenco do Nacional. Vindo do interior de São Paulo e vítima do que considera “o mundo sujo do futebol”, o zagueiro Maurício Leal teve que enfrentar fome e momentos de desespero para se tornar jogador profissional. Do trabalho de ‘flanelinha’ e catador de lixo a destaque nacionalino, o atleta conta por que vive, hoje, o melhor momento da carreira.

Tudo começou aos 16 anos, quando Maurício passou a jogar em um time amador da cidade natal dele, o Estrela Vermelha, em Jandira, a 36 quilômetros da capital paulista. Incentivado pelo treinador a correr atrás do sonho, Maurício entrou para a escolinha de futebol ‘Chute Inicial’, em 2004, e logo foi levado para um teste na equipe B do Corinthians. “Me levaram para uma peneira no Parque São Jorge, no meio de 80 mil atletas. No fim, ficaram só 22, e eu era um deles. Este foi o momento em que, realmente, decidi ser jogador de futebol”, relembra o zagueiro.

A primeira dificuldade veio logo em seguida. Com o pai trabalhando como marceneiro e a mãe como faxineira, Maurício e os dois irmãos cresceram sem regalias. O salário mínimo que os pais recebiam eram, segundo o jogador, o suficiente para um sustento básico e nada mais. Sem dinheiro e com treinos programados na capital quatro vezes por semana, o jovem atleta passou a juntar dinheiro da única maneira que encontrou: catando lixo para reciclagem e trabalhando como ‘flanelinha’.

“Até então, eu não recebia nada e tinha que me virar para conseguir a grana para treinar. Vigiava carro na rua, descarregava caixas na feira, virei ajudante de pedreiro e até catei lixo para reciclagem. O que tinha para fazer eu fazia”, disse o jogador. “O dinheiro dos meus pais mal dava para sustentar a casa. Dava para comer, beber e vestir a família, mas era tudo contado, não tinha de onde tirar. Eu gastava uns R$ 350 por mês para treinar. Era pouco, mas também era muito. Meus pais me deixaram sonhar, mas me alertaram que seria cada um por si”.

Mesmo buscando trabalho da forma que podia, Maurício disse que nem sempre conseguia dinheiro suficiente para treinar e falou do sentimento de vergonha ao catar lixo da rua. “O que eu ganhava dava para a passagem de trem e o lanche, e eu passava o dia inteiro no treino. Tinha uma cantina lá no Corinthians que vendia três esfirras a R$ 1, então eu precisava ter R$ 4 a mais na semana para poder comer, mas teve dia que não tinha o dinheiro nem para a esfirra. O jeito era ir e voltar com fome. Eu sentia vergonha de mexer no lixo, mas ou eu pegava ou não treinava”.

Depois de um ano e meio no time B do Corinthians, Maurício passou por outra peneira e foi parar no time de juniores do São Bento, de Sorocaba, em 2005.  Com dificuldade para se manter fora de casa, o jogador sobrevivia com a ajuda de custo de R$ 150 do clube. Em certo ponto, a dificuldade foi tanta que a mãe dele passou a vender os presentes que ganhava do patrão, para ajudar na carreira do filho.

“Nessa época, minha mãe era faxineira de uma escola e, de vez em quando, ganhava umas bolachas aqui, um pãozinho ali e eu guardava tudo na bolsa para levar para Sorocaba”, contou, gargalhando. “Ela também trabalhou em casas de família e, como sempre foi uma pessoa muito boa, os patrões davam presentes. Uma pulseira, uma bijuteria, coisas desse tipo. Ela vendia por um preço mais barato e mandava o dinheiro todo para mim. Do clube mesmo, a gente só recebia duas marmitas pequenas. A gente economizava e requentava depois. Para nós, que treinamos, é muito pouco, mas era só o que tinha para comer”.

Foi dois anos depois, em 2007, após disputar o Campeonato Paulista de Juniores pela Portuguesa, que Maurício teve a primeira oportunidade de jogar no futebol profissional. Mesmo sem ser utilizado no elenco titular, o atleta passou a morar em alojamento próximo ao Estádio do Canindé e manteve um contrato, de três anos, com o clube. Em 2010, foi a vez de jogar pelo Bragantino, onde, segundo o jogador, teve o momento mais complicado da carreira.

“Tive uma lesão no joelho e fiquei quase dois anos sem jogar. Operei a primeira vez e tive uma complicação durante a fase de recuperação. Os médicos do clube não sabiam dizer o que era. Quando descobriram, já tinham se passado nove meses, então precisei fazer outra cirurgia”, disse Maurício. “Se você não joga, você não aparece. No começo, não tinha confiança na perna, achava que ia ter outro problema. Não é só voltar para o campo que resolve a situação, tem toda uma questão psicológica por trás. Por conta disso, não me destaquei mais e não consegui acertar com nenhum clube. Fiquei parado por seis meses e passei a achar que esse negócio de futebol talvez não fosse para mim”.

O zagueiro se afundou em dívidas e, desempregado, quase desistiu do futebol. Passou a jogar em um time amador de Osasco, na esperança de conseguir dinheiro para o tratamento da gravidez de risco da esposa Larissa e, em pouco tempo, conseguiu se reerguer financeira e psicologicamente. Em 15 de dezembro de 2014, Maurício foi apresentado ao Nacional, após jogar a Série D do Campeonato Brasileiro pelo Oeste-SP.

"Quando o Nacional me ligou, eu não acreditava em mais nada no futebol. Já tinha sido enganado, muitas vezes, e parecia ser bom demais para ser verdade. Felizmente, eles cumpriram ao pé da letra tudo o que foi prometido. É o clube em que me senti mais feliz, até hoje”. 

 
© Copyright 2004 - 2017 / Todos os direitos reservados a Futebol do Norte