Entrevistas
Goleiro amazonense faz história com o River-PI

Por mais um ano o Amazonas cumpriu a triste sina de ser eliminado no Campeonato Brasileiro da Série D. Mas, se para os times do Estado as “portas” de saída do porão do futebol brasileiro são difíceis de abrir, para o goleiro amazonense, Naylson, que defendeu vários clubes locais até 2014, e que em 2015 decidiu defender um clube fora, as portas estão mais que escancaradas.

Decidido a não assinar contrato com o Fast e São Raimundo para a disputa do Estadual deste ano, o goleiro de 28 anos foi defender as cores do modesto River do Piauí. A escolha foi mais do que acertada.

No novo clube ele foi campeão piauiense, participou da Copa do Nordeste e, dez meses depois, conquistou o tão almejado acesso de divisão para a Série C.

“Recebi o convite do técnico Flávio Araújo (atual técnico do River). Já tinha trabalhado com ele no Fortaleza e no Remo e fui para o River. Tomei essa atitude e graças a Deus hoje conseguimos subir de divisão. Conseguimos colocar o futebol do Piauí em destaque”, declarou o jogador, que em 2009 obteve o acesso para a Série C com o América, mas uma decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) anulou o acesso do América por conta da escalação irregular de jogadores. “Seria o meu segundo acesso”, lamentou.

Para o jogador, a troca para o futebol do nordeste não teve motivação financeira. “Fui para o River não por questões financeiras, mas para ter visibilidade. Antes de assinar o contrato eu tive convites do São Raimundo e Fast... A proposta do Fast estava no mesmo patamar com a do River, mas decidi sair do Amazonas e vim pro River para disputar uma Copa do Nordeste e ficamos em terceiro da nossa chave. Classificaram-se dois, o Ceará e Fortaleza. Ficamos a um ponto do segundo colocado. E ainda fui escolhido um dos melhores goleiros da competição”, afirmou.

Naylson foi um dos primeiros indicados do técnico Flavio Araújo para a temporada 2015. A época, o treinador depositou total confiança no goleiro e afirmou nas entrevistas à imprensa que o goleiro vinha para ser o dono do gol na temporada.

“O Flavio Araújo é conhecido como o rei do acesso. Foi ele que me convidou e confiou em mim. Sou titular até hoje, a torcida confia em mim”, afirmou o jogador, que é tratado como ídolo quando sai nas ruas.

“Hoje saio nas ruas e as pessoas querem tirar fotos, receber autógrafos... Me chamam de mito, paredão. Estou feliz”, contou.

Segredo do acesso

Engana-se quem pensa que o River contou com uma folha salarial nas alturas e não teve problemas principalmente financeiros durante à Série D.

O Galo - apelido do clube - formou um time competente, encabeçado pelo técnico Flávio Araújo, e soube na base da conversa aliviar os problemas do dia a dia. “Ficamos dois meses em receber nada. Agora estamos recebendo por causa da renda dos jogos. Agora temos 30 mil pessoas no estádio”, disse o goleiro, que parabenizou o trabalho feito pelo presidente do clube, Elizeu Aguiar. “Temos um presidente correto. Sempre ele está no campo de jogo, acompanhando os treinos. E nunca dá palpite ou quer escalar jogadores. Única coisa que ele conversa com a gente é sobre dinheiro, não deixando faltar nada para a gente. O dinheiro que ele tem ele joga no River e joga limpo com os atletas”.

A primeira temporada no River e consequentemente o acesso para a Série C ao lado do Remo, Ypiranga-RS e Botafogo-SP levou o jogador a uma reflexão quanto ao futebol amazonense. Com apoteóticos estádios ganhos com a Copa do Mundo e prestes a sediar uma Olimpíada, Naylson vê a união como receita   para tirar o futebol local do fundo do poço.

“O futebol amazonense é bom de se jogar. Mas tem muita gente que quer ver o futebol como renda. Os jogadores que conheço só jogam três a quatro meses e depois ficam desempregados. A indústria em Manaus não apóia. Aqui, governo prefeitura, empresários, lojas apóiam... Graças também ao presidente que é um cara honesto. Aí em Manaus tem dirigente que quer escalar jogador e se não for um técnico forte.... Pra Manaus só volto de férias ”, afirmou.

Da perda à conquista

A vida de um campeão não é nada fácil. As barreiras, pedras e espinhos do destino atrapalham. E não foi diferente com Naylson. Na estrada para o sucesso até a conquista mais importante da carreira, o jogador teve de enfrentar a dor da perda do pai e do filho de apenas três meses.

E a primeira perda foi a do filho. A esposa Tiana Santos perdeu o filho no terceiro mês de gestação. “Minha esposa estava grávida e ficou abalada com a situação (doença) do meu pai. Ela ficou nervosa, sangrou muito. Estava com três meses e meio”, lamenta o goleiro.

Onze dias depois da perda do filho, Naylson sofreu mais um golpe. O fã número 1 do goleiro, o pai Nilson, morreu depois de sofrer um AVC. “Meu pai sempre estava me dando apoio nos estádios. Meu pai faleceu na quinta e domingo era final do campeonato piauiense. Ele estava com 58 anos, fazia hemodiálise era um cara que torcia muito para mim”, disse o jogador que recebeu a informação da morte pai no treino, e ainda assim, na véspera da final do segundo turno, foi defender a equipe.

“Não desisti. Fui pro jogo. Ele queria que eu estivesse jogando”, acrescentou.

Jornal A Crítica 

 
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